A decorrer

Igreja de Jesus, Museu de Aveiro

Entre os anos de 1458 e 1460 duas nobres senhoras portuguesas recolheram-se numa pequena habitação, local onde surgiria, pouco depois, um mosteiro feminino de clausura, seguidor da regra da Ordem de S. Domingos de Gusmão, após a respectiva bula papal concedida por Pio II.

A Princesa (Santa) Joana, filha de D. Afonso V, ingressou neste mosteiro, vinda de Odivelas, com o objectivo de proferir votos solenes, que nunca lhe foram autorizados. A razão deste impedimento residia no facto de, por possível morte de seu irmão, o futuro rei D. João II, ainda sem descendência, a ela competia assegurar a sucessão real.

Dotada de esmerada educação humanística, adquirida no contacto com o mestre italiano Cataldo Áquila Parísio Sículo, a Princesa tomou a seu cargo a instrução e formação, por vezes muito severa, do sobrinho D. Jorge de Portugal, filho natural de D. João II.

Durante a sua permanência neste mosteiro, até à morte em 1490, com os seus bens pessoais, dotou-o de obras de arte e implementou trabalhos de ampliação e de beneficiação das instalações monacais, que se estenderam por séculos, umas por motivações estilísticas, outras para cumprimento das normas do Concílio de Trento (1563).

A fachada recebeu as primeiras alterações ainda no século XVI, mas apenas ficaram concluídas durante o período barroco, tendo sido este tempo o de maior campanha de reformas e enriquecimento.

A arte da época de D. Manuel I está presente no portal da igreja e no refeitório com a tribuna de leitura, áreas revestidas de azulejaria branca e azul. O Renascimento e o Maneirismo surgem em apontamentos no claustro.

A igreja já renovada no século XVI, sofreu a partir dos finais do século seguinte e principalmente durante o século XVIII, por acção de D. João V, melhoramentos de carácter decorativo, integrando o revestimento parietal de azulejos historiados, com a talha dourada joanina e a pintura a óleo, tornaram este espaço litúrgico numa verdadeira “arca dourada”.  O arco cruzeiro e os retábulos laterais integram a mesma época estilística.

Na capela-mor o magnífico trabalho de entalhe de mestre António Gomes evidenciado no retábulo principal e na cobertura do tecto decorado com painéis pintados, convidam-nos a usufruir da simbiose dos elementos decorativos.

O coro baixo situado à esquerda do pórtico da entrada foi alargado e revestido de mármore, onde os enxaquetados policromos proporcionam à magnífica arca tumular da Princesa Santa Joana o enquadramento real digno de uma figura veneranda. Esta obra, fruto da criação do arquitecto régio João Antunes, enriquece ainda mais o espaço, devido à delicadeza decorativa da arca de embutidos de mármore criando volutas, pequenas aletas e elementos fitomórficos e geometrizantes. Sustentada por quatro pequenos anjos ajoelhados está rematada por um brasão com as armas reais portuguesas. O conjunto é rematado por uma coroa dourada. O tecto de madeira pintada salienta-se pelas formas poligonais dos caixotões.

A Sala do Lavor foi o lugar onde provavelmente terá falecido a Princesa Santa Joana. Remodelado na primeira metade do século XVIII, recebeu então, total revestimento de talha dourada completada com a presença de pinturas de temáticas religiosas. Trata-se de um reduzido espaço, pleno de grande beleza, comparável a uma pequenina “joia”. Para o mosteiro, os séculos XVII e XVIII foram os mais representativos no contexto das artes decorativas.

Com a reforma geral eclesiástica de 1834, os bens móveis de mosteiros, hospícios e casas religiosas foram confiscados e entregues à tutela do Estado. As diversas dependências conventuais foram ocupadas por um colégio até 1910 e com os ventos da República transitaram para a posse da Câmara Municipal. Foram então tomadas decisões no sentido de aproveitar as instalações para nelas criar um museu, cujo espólio artístico é muito grande e culturalmente valioso. Tratou-se de nele integrar obras da escola portuguesa de pintura do século XV, trabalhos de Frei Carlos, peças de arte flamenga, pinturas maneiristas e barrocas a que juntaram esculturas de vulto redondo, retábulos, mobiliário diverso de excelente entalhe e douramento, aos quais se acrescentam ainda peças de torêutica, ourivesaria/prataria/joalharia, têxteis e paramentaria. A arqueologia também está representada.

Iniciaram-se assim, os trabalhos de recolha de peças pertencentes ao mosteiro e de outras proveniências, numa acção altamente meritória de salvaguarda de património. Desta maneira, podemos dizer que todo este acervo aqui reunido, faz do Museu de Aveiro, um dos mais importantes do país.

Os bens da igreja conventual, à época ainda existentes, foram entregues à protecção da Real Irmandade de Santa Joana Princesa.

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  • Local Aveiro
  • Data 4 de julho de 2019
  • Hora 21h00